Sobre o App — Metodologia
O que cada módulo informa, a fonte, as contas e as limitações declaradas
O que é
O Observatório do Mercado de Seguros é um aplicativo educacional que traduz os dados públicos do mercado segurador brasileiro em oito módulos de leitura direta: panorama e participação de mercado, ranking e concentração, ramos, sinistralidade, provisões técnicas, situação econômico-financeira, grupos econômicos e distribuição por unidade da federação.
Não há dado proprietário, estimativa própria ou projeção: tudo o que aparece na tela é agregação aritmética do que a SUSEP publica. Onde uma conta exigiu decisão metodológica, a decisão está declarada nesta página e em nota no próprio módulo.
Os módulos, um a um
Cada módulo responde a uma pergunta e usa um recorte próprio dos mesmos agregados. Todos partilham o filtro de grupos de ramos e a janela de 12 meses; onde a janela muda, o módulo diz.
1. Panorama do Mercado
Qual o tamanho do mercado e quem são as seguradoras que o formam?
Traz o total da métrica escolhida — prêmio de seguros, prêmio direto, prêmio ganho, sinistro ocorrido ou despesa comercial — acumulado em 12 meses, o crescimento contra os 12 meses anteriores, a sinistralidade do mercado e a contagem de seguradoras ativas.
O treemap divide o mercado por seguradora, agrupado pelo perfil de cada uma — o grupo de ramos em que ela mais arrecada. Atenção: a área de cada célula é o prêmio inteiro daquela cia, inclusive o que ela vende em outros ramos; o perfil é rótulo de cor, não recorte de valor. Quem vende em vários ramos aparece uma vez só, no perfil dominante.
A série do rodapé sobrepõe o valor do mês (barras) ao acumulado de 12 meses (linha), em eixos separados porque as escalas diferem cerca de 11×.
2. Ranking & Concentração
Quem lidera, quanto o topo concentra e como uma seguradora evoluiu?
Ranking: as 20 maiores por métrica na janela de 12 meses, com participação de mercado. O campo de busca filtra a lista inteira e devolve a posição real da cia procurada, não a posição dentro do resultado da busca.
Concentração: CR3, CR5 e CR10 (fatia somada das 3, 5 e 10 maiores) e o HHI — soma dos quadrados das participações em pontos, escala 0–10.000. Ambos são recalculados sobre o recorte de grupos escolhido, então filtrar por “Automóvel” devolve a concentração do mercado de automóvel, não a do mercado inteiro.
Seguradora: prêmio 12m, participação, posição, crescimento e sinistralidade de uma cia, mais a série histórica de prêmio, participação e posição. A busca aqui enxerga também as seguradoras abaixo da materialidade, que no ranking estão somadas na linha “Demais”.
3. Ramos
Em que produtos o mercado ganha prêmio?
Desce do grupo de ramos para o ramo individual: treemap por grupo, clique abre os ramos daquele grupo, e cada ramo mostra as 10 maiores seguradoras nele. Traz também crescimento 12m/12m e sinistralidade de cada recorte.
É o módulo que responde “quanto o mercado arrecadou em RC Profissional” — enquanto o Panorama responde “quanto a Porto Seguro arrecadou ao todo”. Os dois números vêm do mesmo agregado, cortado em eixos diferentes.
4. Sinistralidade
Quanto do prêmio ganho vira sinistro e comissão?
Três razões, todas sobre prêmio ganho: sinistralidade (sinistro ocorrido ÷ prêmio ganho), índice comercial (despesa comercial ÷ prêmio ganho) e combinado simplificado (a soma dos dois).
O painel por seguradora permite escolher uma cia e abrir os números dela recorte a recorte — por grupo de ramos ou por ramo — com a posição no ranking de cada recorte. A posição considera todas as seguradoras com prêmio ganho positivo naquele recorte, sem corte de materialidade, e 1º é a menor razão.
A dispersão final cruza escala (prêmio ganho, eixo logarítmico) com desempenho técnico. O eixo vertical trunca em 200% e em 0%: quem passa é desenhado na borda com marcador triangular e o valor real fica no hover, listado também em nota abaixo do gráfico.
5. Provisões Técnicas
Quanto está reservado para sinistros e o quanto isso cobre?
Saldos de PPNG (prêmios não ganhos), PSL (sinistros a liquidar) e IBNR (ocorridos e não avisados), com as razões que dão sentido ao saldo: IBNR ÷ prêmio ganho, PSL ÷ prêmio ganho e cobertura de sinistros (provisão total ÷ sinistro ocorrido 12m).
Serve tanto ao mercado quanto a uma seguradora escolhida na busca. Provisão é estoque numa data; prêmio ganho e sinistro ocorrido são fluxo de 12 meses — as razões misturam as duas grandezas de propósito, e é assim que o mercado as lê.
6. Econômico-Financeira
Qual o balanço, o retorno e a folga de capital da seguradora?
Ativo total, patrimônio líquido e resultado acumulado em 12 meses, com comparação ano a ano, para até três seguradoras lado a lado.
ROE anualizado = resultado 12m ÷ patrimônio líquido médio da janela, contra a mediana do mercado na mesma competência. PL médio ≤ 0 devolve “—”: um retorno sobre capital próprio negativo inverte o sinal da leitura.
Solvência: suficiência = novo PL ajustado ÷ capital mínimo requerido (CMR). Quando a competência do balanço não traz CMR publicado, o cartão usa a competência anterior mais recente que traz — e rotula a data.
O balanço vem do FIP, cuja entrega atrasa: a competência deste módulo pode ser anterior à do resto do app, e ela vem escrita na tela.
7. Grupos Econômicos
Quanto o mercado concentra quando as cias do mesmo dono são somadas?
Consolida as seguradoras por grupo econômico do cadastro da SUSEP e recalcula CR e HHI sobre os conglomerados. A comparação entre a concentração por cia e a consolidada é o ponto do módulo: parte da pulverização aparente do mercado some quando o mesmo controlador aparece três vezes no ranking.
Os códigos “OUTROS GRUPOS” e “INDEPENDENTE” não são conglomerados — são baldes residuais do cadastro. Consolidar por eles criaria dois gigantes fantasma no topo, então cada seguradora desses baldes conta como unidade própria.
8. Mercado por Estado
Onde o prêmio é emitido e onde o sinistro acontece?
Prêmio direto, sinistro direto e sinistralidade direta nas 27 unidades da federação, em cartograma de grade — a posição de cada círculo é uma aproximação topológica (o vizinho a leste continua a leste), não a coordenada geográfica real.
Só o prêmio direto tem quebra por UF no SES; por isso este módulo não oferece as demais métricas, e a sinistralidade daqui usa sinistro direto ÷ prêmio direto, que não é a mesma conta da sinistralidade do módulo 4 (sinistro ocorrido ÷ prêmio ganho). Os dois números não devem ser comparados entre si.
9. Resultado Financeiro
O lucro vem de subscrever risco ou de aplicar a reserva do cliente?
Decompõe o lucro líquido de cada seguradora em resultado operacional e resultado financeiro, e simula o efeito de um choque de juros sobre o carrego da carteira. No mercado inteiro, o resultado financeiro é 59% do lucro do setor — e há seguradora com resultado operacional negativo cujo lucro é inteiramente financeiro.
A métrica de rentabilidade é resultado financeiro ÷ provisões, nunca receita financeira ÷ provisões. A diferença não é preciosismo: uma seguradora de previdência pode ter 13,8% de receita sobre a reserva e devolver 98% disso ao participante como atualização de reserva. Dividir pela receita bruta a apontaria como a mais rentável do país quando ela é a que menos retém spread.
O simulador aplica Δlucro = choque × aplicações × (1 − β), com β = despesa ÷ receita financeira observado da própria seguradora. É carrego, não marcação a mercado: uma alta de juros derruba o preço da carteira longa antes de melhorar o carrego, e o SES não publica composição nem duração de ativos. As quatro limitações do modelo estão na tela do simulador, não escondidas aqui.
O resultado financeiro vem do balanço, que não tem quebra por ramo — por isso este é o único módulo sem o filtro de grupos de ramos.
Fonte e atualização
A origem é o SES — Sistema de Estatísticas da SUSEP, na modalidade Base Completa, disponível em www2.susep.gov.br. Os números do SES são construídos a partir dos FIPs (Formulários de Informações Periódicas) entregues pelas próprias supervisionadas.
- Cobertura: janeiro de 2015 em diante — 138 competências mensais até junho de 2026.
- Atualização: a SUSEP republica a Base Completa semanalmente; o pipeline do app roda toda segunda-feira, reprocessa a base e regrava os agregados.
- Falha explícita: se o processamento semanal falhar, nada é publicado — os dados da semana anterior continuam no ar e o app nunca exibe tabela vazia como se fosse resultado.
Como ler os números
Três pares de rótulos parecidos designam grandezas diferentes. Não é erro do app: são recortes distintos da mesma base, e confundi-los muda a conclusão.
No Panorama, o galho “Perfil Automóvel” agrupa seguradoras cuja carteira é predominantemente de automóvel e soma todo o prêmio dessas empresas (R$ 91,0 bi). No módulo Ramos, o grupo Automóvel soma apenas o prêmio classificado nesse ramo, venha de que empresa vier (R$ 63,4 bi). O primeiro classifica empresas; o segundo, produtos.
O módulo Econômico-Financeira lê a conta de provisões técnicas do balanço patrimonial: R$ 1.772 bi. O módulo Provisões soma as provisões dos ramos de seguro: R$ 198,2 bi. A diferença é quase inteiramente a provisão de benefícios a conceder de previdência/VGBL — R$ 1.561 bi —, que está no balanço da supervisionada mas não é operação de seguro de danos ou pessoas.
A tabela do SES que abre o prêmio por unidade da federação inclui VGBL e previdência: R$ 364,2 bi contra R$ 210,7 bi dos demais módulos. A contaminação está nos grupos de ramos 13 – Pessoas Individual e 09 – Pessoas Coletivo. O módulo Mercado por Estado exibe o aviso e oferece um atalho que aplica o filtro dos 18 grupos comparáveis — com esse filtro, a soma das 27 UFs bate com o prêmio direto do Panorama a menos de 0,001%.
Metodologia
Definições dos indicadores
Convenções
- Janela padrão de 12 meses. Fluxos (prêmio, sinistro, despesa, resultado) são somados nos 12 meses encerrados na competência de referência; estoques (provisões, balanço) são o saldo da própria competência. Onde faz sentido, o módulo oferece a alternativa “mês”.
- Materialidade de R$ 10 milhões de prêmio ganho em 12 meses. São 114 seguradoras materiais; as demais somam 0,035% do mercado e aparecem agregadas como “Demais”. Em razões, o corte incide sempre sobre o prêmio ganho — nunca sobre o denominador da razão —, para que a população seja a mesma em todos os módulos. A base do corte era o prêmio de seguros até a revisão de 04/09/2026; trocada junto com a métrica padrão, ela mantém as mesmas 114 materiais.
- Unidade monetária: o SES publica os valores em reais, e o app não aplica fator de conversão. A formatação para milhões e bilhões é apenas de exibição.
- Grupos econômicos: consolidam as companhias de um mesmo conglomerado. Os códigos “OUTROS GRUPOS” e “INDEPENDENTE” do cadastro são baldes residuais, não conglomerados: cada companhia neles conta como unidade própria.
- Denominador nulo ou negativo: a razão vira “—”, com a explicação no hover. O app não substitui por zero nem esconde a linha.
Limitações declaradas
- O combinado é simplificado: não inclui despesas administrativas nem outras receitas e despesas operacionais, que o SES não abre por ramo. O índice combinado divulgado por uma seguradora será maior que o daqui.
- Sinistralidade direta, não retida: como as colunas de retido estão zeradas na base, não é possível medir o resultado líquido de resseguro. Em carteiras fortemente resseguradas, a sinistralidade exibida não representa o risco que ficou com a seguradora.
- Defasagem e revisão dos FIPs: competências recentes podem mudar retroativamente quando uma supervisionada reenvia o formulário.
- Reclassificação contábil em janeiro de 2020: o IBNR do mercado cai de R$ 14,6 bi para R$ 9,2 bi enquanto “Outras provisões” sobe de R$ 3,7 bi para R$ 7,8 bi, com o total praticamente intacto. É mudança de classificação, não de risco — o degrau está anotado nos painéis que o exibem.
- Resíduos de cadastro: alguns grupos de ramos (Crédito, Cascos, Saúde, Outros) têm prêmio ganho nulo ou irrelevante e produzem razões absurdas. Onde aparecem, saem do gráfico e são nomeados em nota, nunca descartados em silêncio.
Escopo — o que não está aqui
- Microdados de automóvel (prêmios e sinistros por região, modelo e perfil de condutor): a base foi descontinuada em 2021 e não tem continuidade com a janela deste app.
- Open Insurance: dados de compartilhamento e APIs do sistema não integram o SES.
- Saúde suplementar: é competência da ANS, não da SUSEP, e não está na base.
- Previdência aberta, VGBL e capitalização: aparecem apenas onde a própria tabela do SES os inclui — caso do prêmio por unidade da federação, com o aviso correspondente. Os demais módulos tratam de seguros de danos e pessoas.
- Corretagem, resseguradoras locais e admitidas não são objeto dos módulos: a unidade de análise é a seguradora supervisionada.
Créditos
José Américo Pereira Antunes. Desenvolvido para fins educacionais — COPPEAD/UFRJ.
Stack: Next.js 14 (App Router) e React 18 em TypeScript, Tailwind CSS, Plotly.js para os gráficos e SVG próprio para o cartograma. O processamento da Base Completa é feito em Python (pandas + pyarrow) e publicado como arquivos Parquet agregados, lidos pelas rotas de API do próprio app.
Dúvidas e sugestões: entre em contato.